Sou uma mulher como qualquer outra, exceto pelo fato de ter 32 anos, ainda viver com os pais, não ter um namorado e trabalhar de telemarketing seis vezes por semana ganhando uma miséria e ser totalmente excluída de uma possível vida social. Acordei decidida. Minha vida ia de mal a pior e eu precisava, no mínimo, sair de casa, pois já não me sentia bem ali.
Juntei todas as minhas economias, incluindo o porquinho de porcelana que ganhei com 15 anos da minha tia, e procurei por um apartamento. O que encontrei foi um pequeno conjunto de prédios, muito simples, que se encontravam na divisa de São Paulo e Diadema. Meu dinheiro mal dava para manter o apartamento, muito menos uma bela mobília. Quando sai de casa carreguei comigo minha cama, meu computador e meu rádio, para a infelicidade do meu novo vizinho.
Sempre gostei de escutar músicas de trilhas de novelas e cantar junto com elas. Isso me acalmava e fazia me esquecer da minha não bem sucedida vida. Morar sozinha deveria facilitar meu “hobbie”, mas eu não sabia que tipo de vizinhança teria. Meu vizinho de baixo batia com algo no meio da minha sala toda vez que algum som um pouco mais alto fosse feito. Isso incluía minhas músicas, meu canto e até mesmo a máquina de lavar velha que comprei de segunda mão. Descobri seu nome um dia, por acaso, quando uma conta de telefone chegou por engano na minha porta. Ele se chamava Gustavo e eu não fazia a mínima ideia de como era sua aparência.
Assim como minha cama e meu rádio, meu computador era extremamente velho. Do tipo que você liga quando sai de casa e ao voltar, de noite, do trabalho ele está finamente pronto para ser usado. Hoje em dia poucas coisas ainda funcionam em um “Windows 98”, como por exemplo, o Word e o Paint. Resolvi pagar pelo pacote mais barato de internet, para quem sabe, conseguir voltar de alguma maneira a minha vida social.
Um dia resolvi olhar meus e-mails, e enquanto esperava que minha caixa de entrada fosse carregada (Tempo suficiente para um banho.), reparei no canto da tela um link para bate-papo. Fazia tanto tempo que eu não ouvia falar disso que resolvi entrar. E ai tudo aconteceu.
Conheci Roberto. Ele era simplesmente perfeito. Loiro, alto, peso ideal, morava em São Paulo, trabalhava com vendas, era bem sucedido. Um poeta. Me escrevia coisas lindas e dizia que imaginar como seria olhar para meus olhos o inspirava. Me dizia que mal podia esperar para sentir meu cheiro, meu beijo, meu corpo. Quanto mais conversava com ele, mais feliz e apaixonada eu ficava. Tinha sentido cantar novamente, pular, sorrir. E a cada dia meu vizinho reclamava mais pelo barulho, mas eu o ignorava.
Eu poderia passar o dia inteiro na frente do computador falando com Roberto. Com ele as horas voavam. Ele era uma espécie de príncipe encantado. Meu sonho realizado. Resolvemos nos encontrar. Eu deveria ir de vestido vermelho e ele com uma calça preta e uma camisa verde, para combinar com a cor de seus olhos.
Cheguei no restaurante um pouco antes do horário combinado. Eu gostava da espera, da surpresa, da adrenalina, porque era assim que me sentia enquanto esperava pelas suas respostas no computador. Olhei para a porta e acompanhei a entrada de um ruivo, de estatura mediana, com uma pequena barriga que estava coberta pela camisa verde. Ruivo não é loiro, pensei, ele também não era alto e estava um pouco acima do peso.
Sim, era Roberto. Passei os primeiros dez minutos de nosso encontro tentando convencer a mim mesma que a aparência não importava, e que ele havia mentido talvez por medo de ser rejeitado. Porém outras coisas começaram a me chamar a atenção. Os poemas não eram tão bonitos agora falados com aquela voz fina e meio anazalada. Tentei conversar sobre algo mais cotidiano e ele me revelou que não morava mais em São Paulo e sim na divisa, em um predinho simples que ele havia comprado com o dinheiro das vendas. Vendas de bombons feitos por sua irmã. Foi ai que notei que seus olhos eram mel com um pequeno contorno esverdeado que, tenho quase certeza, eram reflexo de sua camisa.
Ele me falou sobre sua família e no meio da conversa comentou que seu nome não era Roberto. Como na sala em que conversávamos já existia alguém com seu nome ele se via obrigado a usar o nome do pai. Perguntei em uma última tentativa de não me decepcionar, qual era seu nome. Ele me respondeu: Gustavo. Por um momento eu congelei, senti um grande frio na barriga, mas me obriguei a ter certeza. “Como é sua vizinhança?”, lhe perguntei. Ele contou que era calma, exceto por uma histérica que havia se mudado a pouco tempo para o apartamento de cima, e que adorava cantar a plenos pulmões com sua voz desafinada. Eu me calei o resto da noite. Terminei meu assado e voltei para casa.
Hoje, quando voltei do trabalho, encontrei a lista que fiz noite passada, ao lado do monitor. Nela escrevi muitos motivos e desculpas para que não pudéssemos mais nos ver. Entrei na conhecida sala de bate-papo, e comecei a conversa agradecendo pelo jantar. Eu não vou terminar nosso caso, não posso acabar com meu sonho. Eu sabia quem ele era, mas ele não precisaria saber quem eu era.
Prefiro Roberto. É um nome forte, clássico, mais bonito. Faz vinte minutos que ele me mandou a última resposta, pois tinha que preparar o jantar. Pelo cheiro imagino que seja carne de panela. Não me importa quem ele é de verdade, e sim a adrenalina da espera, seus poemas e a rotina de suas doces palavras na tela do meu antigo computador. Preciso disso, preciso dele porque o amo. Eu o amo. Eu o amo no mundo de faz de conta, no mundo virtual, porque de realidade, basta minha vida.
*Alma Gêmea - Fábio Jr.*