quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Linguiça: Eu te amo!

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas!” foi escrito por Antonie de Saint-Exupéry por volta da década de 40. “Que seu afeto me afetou é fato. Agora faça-me um favor” foi escrito por Fernando Anitelli, provavelmente no final da década de 90, começo dos anos 2000. O que ambos tem em comum? Ora, tudo! O que muda é a forma de se fazer poesia.


Palavras diferentes são usadas a todo momento para significar a mesma coisa, ao mesmo tempo que palavras idênticas podem significar caminhos tão distintos que chega a parecer piada, um trocadilho. Neste ponto o texto pode estar parecendo muito vago e até mesmo confuso para você, mas vamos organizar as coisas; Quantas pessoas tu cativou ultimamente? E antigamente? Ainda é responsável por elas? Responsabilidade tem prazo de validade? E amizade? Amor? Quantas pessoas tem recebido seu afeto? Quantas o merecem realmente? Essas são as mesmas pessoas? Você deve favores? Perguntas e mais perguntas, se esperas no final deste texto encontrar as respostas, devo avisá-lo desde já: Pare de ler!

Perdemos tempo o tempo todo. Ser politicamente correto, ser ético, um cidadão respeitável é muito trabalhoso. Trabalhamos, estudamos e depois nos damos ao direito da diversão alegando merecimento. Nossas responsabilidades ficam limitadas a nossas obrigações, mas veja bem, se sou responsável por aquilo que cativo e minhas responsabilidades são minhas obrigações... sou obrigada a cativar? Sim. É a lei da vida. É o que acontece com uma convivência que envolve carinho e preocupação.

Acontece quase sem querer na maioria dos casos. Uma luz diferente reflete em seus olhos e pronto, cativou. Seus braços servem de apoio em um escorregão e lá se vai mais um. Seus ombros e sua camiseta nova, que custou quase um mês de esforço podem, de repente, servir de lenço para alguém e lá está você se responsabilizando novamente. Mas e quando passamos da conta de responsabilidade? E quando não podemos mais nos responsabilizar por mais ninguém? Aposto que Antonie não tinha pensado nessa possibilidade. Para quantas pessoas Anitelli deve favores?

E então percebemos que independente de dar conta ou não, o mundo continua virando, a vida continua passando e as coisas continuam acontecendo e o que nos resta é o afeto; O afeto pelas lembranças que sentimos um dia por nosso cativo e a vontade de nos responsabilizarmos por ele. Quantas vezes afinal nos deixamos cativar? Quantas vezes alguém nos afetou? Quantas vezes e quando passamos a ser responsabilidade de alguém? Quantas vezes nos permitimos tudo isso?

O que quero dizer é que as palavras faladas são muito complicadas de serem ditas e, por vezes, ouvidas. Mas as escritas...Ah, as escritas! Elas nos permitem ser mal educados, ser verdadeiros, sonhadores e mais do que qualquer outra coisa, nos dá a escolha do acreditar. Uma história, uma verdade, uma mentira, só passa a existir a partir do momento que alguém acredita! É tão difícil falar, mas é tão fácil escrever. Talvez seja difícil acreditar, mas tenho certeza que é fácil sonhar.

Na escrita tudo pode ser a mais absoluta realidade, ou a mais fantástica viajem; posso dizer, por exemplo, que a mais de 30 horas estou chorando e sofrendo por alguém que já foi tudo na minha vida, mas que hoje não deve mais se lembrar de mim graças a um grave acidente que descobri recentemente. Cabe a vocês acreditar ou não. O que devo dizer então com todas essas ladainhas e voltas e encher linguiça é: Eu te amo! Ainda me preocupo com você, ainda me importa! Talvez eu não seja mais responsável por ti, mas você me cativou de tal maneira e seu afeto me afetou de tal jeito que a promessa que sempre lhe fiz, de tantas vezes repetir, a vida se encarregou de me fazer cumprir! Porque simplesmente, ainda te amo, não importa que forma de amor seja.

E a vocês, meus caros e raros leitores, tenho a obrigação de informar que nas escritas desta suposta “autora” qualquer semelhança é mera coincidência. Entre os textos deste blog encontra-se verdades extremamente reveladoras, e mentiras extremamente sonhadoras. Entre textos autobiográficos ou totalmente imaginativos, acredite no que lhe for conveniente, mas acredite. Faça das minhas mentiras, das minhas verdades e das minhas histórias de menina um prazer e um sonho realizado para esta que lhes pede com afeto: Cativa-me! Faça com que o trigo ganhe um significado. Cativa-me e eu lhe farei um favor...


*A Lista – Oswaldo Montenegro*

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Verde, azul e Lua - Mulher

Olhou para aquele rosto tão conhecido e a única coisa que podia notar era o que lhe faltava; vida. A vida por detrás do sorriso daquela mulher que tanto amava. Não poderia deixar isso acontecer e se acalmou. Com delicadeza e aproveitando o ar da noite, quando podia ir um pouco além de suas margens comuns, deixou que suas ondas empurrassem o corpo para a praia. Lá passou o resto da noite, ainda envolvendo-a, mas cada vez menos. Ela escolheu ele. Ele escolheu a vida dela. Enfim compreendeu; não poderia deixar de ser e nem poderia torná-la mar.


Com uma forte pressão acordou. Sua garganta ainda ardia e seu corpo inteiro doía. Ela estava deitada nas pedras olhando para o céu estrelado e escuro, procurou a sua volta, mas não encontrou as águas. Estava só. Ele a havia deixado como deixava seus presentes pela manhã. Sua última lembrança antes de se afastar pela última vez. Estava em outro lugar, ela não via a praia nem a mata ao longe. Não achava ele. Estava só. Seu corpo havia mudado novamente, dessa vez mudanças sutis, e por todo ele haviam cicatrizes e marcas de uma luta que não sabia dizer se doía mais por dentro ou por fora. Só.

Com esse pensamento colocou a mão em seu peito e notou com angustia que o pedaço de alma que havia deixado com ele não fora reposto por completo. Ele deixou um pouco de si, mas levou muito dela. Não era mais inteira. Seu destino era ficar eternamente envolvida pelo mar, mas o destino dele era continuar sem ela. Ela escolheu morrer por ele. Ele escolheu viver sem ela.

Por muito tempo ficou deitada, na mesma posição, sem mexer um músculo. Esperava que células fossem a regenerar, como era na mata. Sentia saudades de sua árvore, sentia falta de sua sombra. Mas seu corpo já não era de forma alguma compatível com suas raízes. Tomada por um impulso resolveu se levantar e aceitar que seguiria sozinha. Ao colocar os pés no chão percebeu que eles já não eram mais os mesmos e olhando para baixo viu que estavam encostados, mas não podia sentir, não conseguia mais sentir o chão. Teria que viver assim; sem verde, sem azul, sem chão. Onde a noite era eterna.

Já não reclamava mais das pedras duras sob seu corpo e nem da noite que nunca ia embora. Não gostava de viver daquele jeito, mas aprendera a conviver. Ficava deitada com os braços sob a cabeça olhando para o céu e admirando as estrelas, seus desenhos, seu brilho e sua beleza. E numa noite notou que uma delas estava brilhando mais e resolveu, por instinto talvez, prestar atenção. A estrela começou a se aproximar e se revelar algo muito maior. A mulher descobriu que não estava mais tão só, agora ela conhecia a Lua.

Com toda a escuridão que a envolvia e seus mistérios, seu silêncio e suas palavras tão desconexas ela era encantadora. Mas a mulher havia aprendido a desconfiar de coisas encantadoras, ela havia perdido a confiança em tudo que era belo e que lhe trazia paz. Suas cicatrizes pareciam brilhar ainda mais no luar. Era como se a Lua, sem querer, estivesse lá para lembrá-la do quão frágil e solitária era. Se viu incapaz de se entregar. A Lua despertava instintos dos quais a mulher nunca precisou depender antes, pois sua razão lhe fora suficiente. Estava confusa e apavorada. Mesmo com tudo isso, a Lua a conquistou.

A mulher olhava em sua volta e não via nada, além de pedras. Ao olhar para o céu via a Lua, cercada de estrelas e cometas. Descobriu ali dois novos sentimentos; o ciúme e a inveja. Tinha ciúmes da Lua e inveja das estrelas. Elas pareciam tão próximas e parecia tão injusto a mulher que ela, tão pequena diante de tudo aquilo, precisasse lutar por sua atenção. A mulher não brilhava, não era bela, não tinha luz. Não mais.

Não sabia dizer se gostava de verdade da Lua. Não sabia responder suas perguntas, nem entendia grande parte de suas faces. Não confiava nela. A admirava, com certeza. Mas como não admirá-la? A queria por perto, gostava de sua luz, do que ela lhe oferecia. Sentia que, diferente do mar, não abriria mão de maneira alguma da Lua por simplesmente a querer. Toda aquela luta a tornou uma mulher egoísta. Não estava mais disposta a deixar o que lhe trazia vida partir por ser o melhor a fazer. Nunca deixou um pedaço, por menor que fosse, de sua alma com a Lua sem algo em troca e sem a certeza de que não abriria novos buracos.

Perguntou o que sentia então pela Lua, mas não havia ninguém para lhe responder. Decidiu dormir e ver se seus sonhos trariam as respostas, mas só trouxeram mais perguntas. Buscou no vento. Buscou em suas cicatrizes. Buscou nas pedras. Secretamente, buscou entre as estrelas e na própria Lua. Nada. E só conseguia ter certeza de uma coisa; Não era o amor agradecido que sentia pela árvore e não era o amor apaixonado que sentia pelo mar, mas era amor. Não sabia qual, mas a amava com força igual a qualquer outro amor.

A Lua não lhe fazia nenhum bem maior, mas nunca lhe fez grande mal. A Lua não conhecia muito bem a mulher e a mulher não queria o passado da Lua. A Lua não dependia da mulher e a mulher viveria sem a Lua. A Lua nunca prometeu nada a mulher e a mulher nunca esperou nada da Lua. A Lua nunca deixou a noite estrelada pela mulher e a mulher nunca deixou de esperar pela Lua...


Em um lugar que nunca se ouviu falar, em um planeta que nunca ousaram imaginar, de uma galáxia impossível de achar.


*Quem de nós dois – Ana Carolina*

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Verde, azul e Lua - Moça

Deixou o ar velho sair lentamente de seus pulmões abrindo lugar para um novo oxigênio, um oxigênio mais azul. Com esforço ela abriu os olhos para aquela claridade que não estava acostumada e aos poucos eles começaram a captar todas as informações e imagens novas. Era estranho, mas lindo. O chão era coberto por uma terra muito fina e macia que arranhava com delicadeza seus pés. Ela continuou a andar. Olhou para o horizonte e viu algo que lhe fez arrepiar todo o corpo, pois era belo e atrativo. Era a primeira vez que a menina, agora moça, via o mar.

Ao continuar andando notou sob seus pés que a terra havia mudado de textura e começara a ficar úmida. Ela se abaixou e tocou o chão com seus dedos por buscar, com um tato mais comum, que nada lhe passasse despercebido. De repente uma onda veio do fundo do mar e empurrou suas águas até a mão da moça e foi assim que ela foi tocada pela primeira vez por ele.

Ela estava encantada e a cada dia se sentia mais atraída por todas as águas salgadas que a rodeavam. A liberdade que ele representava e sua eterna vastidão dava a moça vontade de nunca mais sair de sua beira. O mar todos os dias pela manhã se afastava, porém sempre deixava algo a ela; presentes, acreditava. Conchas, caracóis, lembranças.

Nutria por todo aquele azul sentimentos únicos que eram diferentes da árvore, da mata e tão grandes quanto. Mas ainda não sabia nomeá-los. Ela o respeitava, admirava e sentia como se seu coração fosse sair de seu peito em encontro a ele todas as vezes que a tocava. Em todo aquele mundo só dela, com tantas coisas a lhe oferecer, algo nas águas lhe chamavam e era a ele que ela pertencia. Acreditava que sua vida eram aquelas ondas e que seu destino estava com ele e fazia parte dele. Ela já sabia dividir pedaços de sua alma e assim lhe entregou o maior deles.

Ela acordou com seu toque em uma manhã comum. Em seus sonhos achara as respostas e resolveu que ali se entregaria a ele por completo. Ela andou em sua direção sentindo com atenção o chão sob seus pés mudando e mudando. Ele havia se afastado, como sempre, mas ela foi a seu encontro. Sentiu seus pés entrando nas águas e seu coração deu um salto em seu peito. Estava certa. Estava completamente apaixonada. Sentiu as águas tomarem conta de suas longas pernas, de seu quadril, seu tronco, seus braços, seu pescoço... e finalmente estava totalmente entregue. Submersa.

Notou enfim, que não havia mais chão sob seus pés. Seu corpo congelou e sua consciência gritou. Gritou tão alto que assustou o mar que aquela hora estava entregue a ela também. Ela foi bombardeada por novos sentimentos, mas esses não gostava de sentir. Sentiu medo. Pela primeira vez em sua vida estava apavorada. Não havia mais chão. Ela estava envolvida, completamente envolvida. Não tinha volta. Estava sem chão. Ela aprendeu naquele momento que havia um preço. O preço por sua entrega seria sua vida.

Desesperada começou a atingir o mar, com gritos, socos, chutes. Suas lágrimas se juntaram as águas. Ela queria ir embora, esperava que não fosse tarde. Ele se agitou junto com a moça, mandando a ela respostas que jogavam seu delicado corpo de um lado a outro, ondas cada vez mais fortes e altas. Cruéis. Precisava entender que ali a verdade era que ela estava lutando pela própria vida e não contra ele. Entendeu. Ele a amava e a desejava, mas o preço a ele também era muito alto. As lágrimas da moça e seus gritos por socorro o despertaram. Ele a estava sufocando e machucando. Não era isso que ele queria. Acabaria por separá-la de sua alma. Seria o culpado. Era tarde para ele também? Ele a queria e mais do que isso, a queria inteira.

A moça desistiu. Não sabia mais dizer a quanto tempo estava naquela batalha. Não sabia mais o que fazer. Em meio a tudo aquilo relaxou seu corpo, não havia volta, não havia escolha. A escolha já tinha sido feita ela teria que aceita-la. Seria dele. De corpo e alma. Ela o amava mais que a própria vida e agora estaria provado. Podia sentir ainda as fortes ondas que cobriam sua cabeça. Sua garganta queimava. Seu corpo pedia por oxigênio. Seus olhos se fecharam e sua consciência se calou.


*Ana e o Mar – O Teatro Mágico*