quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A sua imagem e semelhença

Antes já havia se perguntado o que tanto a incomodava...


Ela finalmente parou para prestar atenção. Sua imagem no espelho não correspondia a sua imagem real. Como a sombra de Peter Pan, que criava vida e resolvia fugir dele. Era isso! A sombra havia fugido e deixado apenas um corpo igual em sua imagem e tão diferente em sua essência. Será?

Talvez a sombra, cansada de ser limitada, resolveu se desprender e seguir a sua jornada; quanto ao corpo, livre por si só, tomou o seu lugar com forte presença. Aonde ele estava todo o tempo que ela ficou presa a sombra, não poderia responder. A coincidência a assombrava. Apesar de qualquer coisa se sentia incompleta, sem o corpo por inteiro e sem nem resquício de sua sombra.

Se olhava no espelho, virando de um lado para outro. O que a incomodava não eram – nem de longe – as diferenças e sim as semelhanças. E eram tantas! Seus cachos, sua cor, seu corpo, sua altura, mão, o sorriso que se esconde no canto da boca, a complicação, o impossível, o platônico, a sombra.


... olhar aquela imagem foi como um soco na boca de seu estômago. Ela estava simplesmente apavorada!


*Flores do Mal – Barão Vermelho*

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

inspiração por nada confusa

Ultimamente a minha vontade de escrever anda totalmente ausente. Eu monto histórias na minha cabeça, chego até a montar frases e pequenos parágrafos, mas eles parecem não querer sair da área que nasceram. Escrever é, sempre foi, e sempre será um parto. Mas ultimamente anda sendo cesárea. Me pergunto o que aconteceu, se a pouco tempo a trás eu estava produzindo tanto, enchendo esse espaço com textos novos, e novas ideias que iam para a gaveta por não ter tempo de colocar todas em prática de uma só vez. E foi lendo a uma entrevista de uma cantora talentosíssima que tenho me apaixonado, que entendi o que anda acontecendo.

Ela conta em sua entrevista que suas composições vem dos momentos em que se sente mais solitária e desamparada, que quando seu mundo está desabando ela produz como nunca. Ela diz que não poderá se casar, ou terá que dizer em um belo dia a seu marido “me desculpe querido, mas preciso do divórcio. Tenho um álbum para escrever.” Então é isso? Só se produz no sofrimento? Eu vou precisar sofrer para sempre para viver do que amo? Não posso acreditar, mas acabo acreditando.

No último mês algo pelo que esperei à tempos, finalmente aconteceu. Eu estou feliz. Realizada. Os meus últimos tombos, e minhas últimas feridas me fizeram acordar para meu mundo, que de novo não tem nada. Abri meus olhos e a cada dia me reequilibro mais e mais. Meus sentidos e minha razão ainda travam lutas violentíssimas dentro de mim, mas agora sou eu que escolho quem vencerá. Meu mundo, tão antigo e clássico, está voltando em forma de revolução e novas descobertas. Como e difícil não relaxar, e me manter em pé, com atenção e pronta para qualquer coisa. Como eles exigem de mim.

Isso tudo não passa de uma grande mentira. Eu não mudei, não estou mudando. Mas voltei, estou voltando. Cansada de ser a única que vê aqueles olhares, que escuta os suspiros provocantes que despertam o que tem de mais primitivo e selvagem em mim. Não existe uma alma viva capaz de me explicar, fazer entender e muito menos aceitar, que existem regras e padrões a serem seguidos apenas por poucas pessoas, em pequenos períodos de tempo, apenas dentro da linha do interesse de cada um. E aquilo tudo que cresci ouvindo sobre “seu direito acaba onde começa o do outro”? Eram mesmo brincadeira de criança, contos e fábulas?

Compreendo, é claro, que a minha educação é minha. Meus ideais, a minha diferença entre o certo e o errado, meus conceitos e todo o resto, é meu. Não posso exigir, dentro de uma ignorância sem tamanho, que todos tenham a mesma visão que eu sobre as coisas. Mas não é óbvio que matar e roubar são coisas erradas de se fazer? Existem pequenos outros crimes, muito mais simples e de menor conseqüência, que também deveriam ser óbvios. Talvez essa seja a resposta, são pequenos demais. Pra quem?

Ah, essa hipocrisia me cansa a beleza! E não falo da beleza física, mas da beleza da vida, das relações, do ambiente, da convivência, da educação mínima. Perdi as contas de quantas e quantas vezes quis desistir de tudo, abrir os meus braços e gritar “Leeeva, faça bom proveito!”. Chego no ponto que a minha prioridade é a minha sanidade. Não é brincadeira, nem exagero.

Recentemente senti o doce gosto da loucura, que a princípio vem com a liberdade. Ninguém julga um louco, ele é louco! Mas como a loucura não era profunda, ainda pude enxergar o mundo externo e cinza se definhando com meu mundo interno e colorido. E isso eu não pude sustentar. “Fracos são aqueles que amam”, é a maior verdade que já ouvi. Se nada me prendesse no chão, se ninguém existisse aos meus olhos e ao meu coração, como seria doce a loucura!

Chego assim à conclusão que não é a mágoa, o desespero e o sofrimento que me inspiram, é único e simplesmente o amor. Eu me magoo quando alguém que eu amo me afeta, me desespero quando algo que amo saiu do meu controle e sofro por amar pessoas e coisas que não deveria amar. Sendo assim, não tenho motivos para temer, o amor se faz mais do que presente em minha vida, e não falo apenas do amor romântico. Sendo assim, respiro fundo, tomo meu floral, abro meus braços e grito “Veeenha, quero ver o que ainda de proveito se pode tirar de mim!”


*Someone like you – Adele*