sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Verde, azul e Lua - Menina

Em um lugar que nunca se ouviu falar, em um planeta que nunca ousaram imaginar, de uma galáxia impossível de achar...


A menina andava tranquilamente e sozinha em meio as árvores que sempre foram seu lar, seu refúgio. Acreditava que cada ser daquela vasta floresta tinha alma, e não qualquer alma, mas um pedaço da sua. Algo que ela foi perdendo aos poucos ao mesmo tempo em que ganhava, como células se regenerando e dando lugar para novas descobertas.

Havia uma árvore. Uma árvore especial entre todas as outras, uma que era maior e mais bela. Que lhe oferecia melhor abrigo e que a cobria completamente nos tempos de tempestades ou sol escaldante.

Ela vivia em suas raízes e dela tirava tudo o que precisava. Respirava o ar reciclado pela árvore, bebia de sua seiva, se alimentava de seus frutos. Seu cheiro era inigualável e único em toda a floresta. A menina se via completamente dependente da árvore.

Um dia ensolarado e em qualquer outro momento lindo, acordou em meio a uma confusão. Suas pernas e seus braços não cabiam mais naquela sombra, eles haviam dobrado de tamanho. Seu corpo inteiro havia mudado e se transformado em algo que não se encaixava mais nas velhas raízes. Sentia fortes dores abdominais e por muito tempo tentou ficar quieta, abraçando seus próprios joelhos e esperando que tudo voltasse ao normal. Sua meninice se foi em grande parte naquele dia, abrindo um espaço em seu íntimo para outras descobertas, outros sonhos e desejos. Novas vidas.

Com o tempo, a dor se foi e sua inocência também, mas seus braços e pernas não encolheram novamente. Algo maior, que ela não podia explicar, a havia mudado e lhe restava aprender a viver com seu novo corpo. Então se deu ao direito de correr pela mata e aproveitar suas longas pernas. Descobriu outras árvores, outras raízes, outras seivas, outros frutos... Outros aromas. Se viu encantada por tudo de novo que havia descoberto. Usou durante muito tempo seus novos braços para distribuir novos abraços.

Mas de repente a floresta não era mais suficiente. Ela sabia, tinha certeza do quanto amava e era agradecida a sua árvore, mas precisava de algo mais. Tomou sua decisão e na manhã seguinte, deixando a árvore ainda adormecida para que não notasse sua ausência, pegou sua última trilha.

Já estava andando a muito tempo em meio aquele ar úmido e tão esverdeado, até que viu pequenos raios de luz tão claros como nunca tinha visto. Eles passavam por entre os galhos já finos de árvores mais baixas, tão baixas, arbustos. Ela respirou pela ultima vez seu ar tão conhecido, foi uma respiração lenta e demorada, repleta de coragem e esperança.


*O Vento – Jota Quest*