Eu estava andando em uma rua onde passam por dia milhares de pessoas. Algumas mais esquisitas, outras nem tanto, outras ainda que você pode jurar que não vieram do mesmo planeta que você. Seres estranhos com roupas bizarras e cabelos de cores indefinidas.
Me sentei em uma mesa. Não na mesa propriamente, é claro, mas em sua cadeira que ficava de frente para outra cadeira com a mesa no meio, e esperei para ver o que poderia acontecer. Foi quando o vi. Esse ser, esse estranho, juro ter vindo de outro planeta. Misturava tipos de roupas diferentes e cores que simplesmente não combinavam, ou melhor, combinavam... não sei dizer, afinal nunca entendi a moda. Uma pochete totalmente brega pendurada na cintura e uma postura inaceital. Tinha no rosto traços fortes e delicados. Ombros muito largos e era loiro. Nunca gostei de loiros. Prefiro os morenos. Nada contra loiros e ruivos e muito menos contra aqueles cabelos de cores com nomes de fruta ou doces suculentos. Morenos são muitos mais charmosos e bonitos. Não gostava de loiros. Criatura que chamou minha atenção. Tudo o que não nos é normal nos chama a atenção. Desde que era pequena sempre acreditei que o mundo é um lugar estranho e que as pessoas que nele vivem só podem ser chamados de anormais quando na verdade são normais.
Ele se sentou na outra cadeira que ficava em frente a minha com a mesa no meio. Me olhou. Eu olhei. Ele sorriu. Eu não. Ele parou. Eu sorri. Tudo bem?, ele disse. Eu acenei. Que tipo de pessoa perguntava se o outro estava bem sem nem sequer conhece-lo. Começou então a falar de sua vida e sorria de uma maneira que me irritava ao mesmo tempo que me intrigava. Porque alguém com os dentes tão certos precisava de aparelhos? Talvez fosse para seu queixo que era levemente mais para frente que seu próprio nariz. Pensei em perguntar. Pensei em perguntar muitas coisas das quais nunca tive vontade de perguntar a ninguém. O que você gosta de comer?, eu falei. Muita coisa, ele respondeu. Ser indeciso. Não gosto de pessoas que me deixam confusa. Pessoas indecisas me deixam confusa. Como alguém não sabe o que gosta de comer? Fui para casa.
Minha casa é simples. Um apartamento de três cômodos. Três cômodos razoáveis e mais a lavanderia, que por ser pequena nunca contei como cômodo. Não gostava dela me dava medo. Me dá medo. Sua janela dá direto para o banheiro e quando me sento no vaso tenho a sensação que a qualquer momento uma mão, digo, mãos seguidas de braços longos e brancos vão me pegar enquanto me distraio com minhas necessidades. Por isso nunca me distraio. Ficava pensando no alienígena. Isso me irritou. Porque pensar nele? Me irritou. Pensar que quando estava lá tive vontade de lhe fazer perguntas, despertou meu interesse. Me irritou muito. Não era assim, não me apaixonava rápido. Nunca acreditei em amor a primeira vista. Me irrita demais.
Me arrumei, colocando uma calça longa e colada que deixava ver o contorno de minhas pernas que na minha opinião são grossas demais para a minha bunda. Um blusa com uma gola diferenciada e preta. Sai. Cheguei no lugar que tinha música alta e pessoas de corpos, bocas e com certeza estavam chegando a colar suas próprias almas. Algo em meu peito pulou. Não existe inveja boa. Eu estava com inveja. Mas uma inveja boa. Resolvi ir pegar uma bebida. Queria colar minha alma. Subi a escada cujo os degraus eram largos e baixos.Um, dois, três, quatro. Quatro degraus. Não gosto de números quebrados, números quadrados me dão aflição. Azar. Bati o pé no chão firme fingindo ser o quinto degrau. Cinco é um número bom. Um braço se esticou na minha frente. Não era afinal um número tão bom. Era ele. O estranho. Estava sentado com alguém um cima dele que não sei bem dizer se era um homem ou uma mulher. Afinal hoje em dia não se define mais o sexo pelo corte de cabelo, pela roupa que usa e muito menos pelo que se tem no meio das pernas. A pessoa era grande. Enorme. Mas o estranho era ainda maior. Nunca fui alta, sempre ficava entre a segunda ou terceira na fila crescente do fundamental. Mas tinha com certeza o dobro de sua largura. Ele sorriu. Eu sorri. Talvez de choque. Ela não sorriu. Com certeza era choque. O que alguém que usa pochete estaria fazendo naquele lugar? Me deixou confusa e indecisa. Não gosto de ficar confusa. Ele falou, mas eu não ouvi. A música era alta. Eu acenei. Ela não se mexeu. Ele sorriu. Eu sorri. Ela sorriu. Senti raiva, ódio, inveja. Mas uma inveja boa. Mexi a mão em um gesto de até mais tarde. Bebi. Até ali só queria beber para acabar com a sede. Bebi. A sede acabou. Bebi. Olhei em volta e uma familiar música começou. A inveja cresceu. Inveja boa. Bebi. Minha bexiga apertou. Bebi. As coisas começaram a ficar estranhas, nubladas, tonta. Bebi. Desci novamente os degraus que agora eram estreitos e altos. Sentei. Imaginei e meu estomago reclamou. Meu coração pulou e a raiva adormeceu. Fechei os olhos. O mundo parou. Tudo passou. Eu estava no colo do estranho no lugar da pessoa de sexo indefinido.
*Tudo Certo - Luiza Possi*