Estes últimos dias foram quase nostálgicos, quase mágicos, quase perfeitos, e eu quase fiquei feliz. Meus quatorze e quinze anos foram os mais esperançosos de minha vida, e tudo que passei, as pessoas que conheci e o que vivi neste período, me traz uma saudade inominável. Logo, tudo que me leva a esses anos me traz uma calma, uma esperança e uma felicidade indescritível. E como poderiam pequenas besteiras estragar tudo isso? Oras, mas é claro que poderiam, e como não?
A expectativa, o orgulho que não estava cabendo no meu peito, a gratidão ao destino por agradecer a um amigo que tanto me ajudou em momentos difíceis. O lugar, o cheiro, as pessoas, o ambiente, as cores, os detalhes. Tudo funcionava como uma máquina do tempo. Uma menina adolescente, animada por nada, simplesmente para ver seus ídolos, por ter pelo que esperar. A respiração ofegante que tanto me forço para disfarçar, que aparecem nesses momentos em que eu deveria estar sozinha, sem dar explicações, detalhes, justificativas. Só sentir e curtir. Aquele momento que ninguém, a não ser eu, sabia o quão importante era e daí... Dói. Nada de mais, só a velha dor do crescimento.
Lembro que sentia dores nas pernas e nas costas, mas não eram dores musculares, as dores pareciam vir dos ossos. Minha mãe me levou ao médico e depois de um exame muito rápido e de saber minha idade deu o diagnóstico como sendo “dores comuns do crescimento”. Só que o médico esqueceu de me dizer que aquelas dores seriam as que menos doeriam e as mais fáceis de suportar. Qualquer crescimento dói. O amadurecimento dói. É como ver um desenho de bonequinhos palitos que seu irmão mais velho fazia e eram incríveis quando você tinha cinco anos, mas com o passar do tempo você aprende que aquilo nada mais eram do que bonequinhos de palito e que você poderia fazer igual e até melhor. “A ignorância é uma benção”, é verdade! Como dói o peso da responsabilidade, e simplesmente não entendo porque ao crescer se perde a beleza das coisas mais simples. Parece que você é obrigada por todos, todo o tempo, a ser melhor, mais compreensiva, mais calma, mais tolerante e esperam sempre mais de você, assim como se espera sempre mais dos outros. Se me permito dizer, estou exausta de tantas expectativas!
Essa cobrança sufocante de ser uma mulher vinte e quatro horas por dia e sete dias da semana. E depois de um susto a menina de quinze anos que estava comigo deu lugar a mulher, por falta de espaço realmente, por não poder e não saber ser e ter ambas ao mesmo tempo. Entrei naquele lugar que nunca tinha entrado antes, e mesmo assim me era tão conhecido. Eu juro que podia sentir a euforia tentando tomar conta de meu corpo novamente, mas eu não permitiria. Tanto a euforia como o álcool me tiram completamente o filtro e é nesses momentos que sempre me arrependo. As cortinas nem tinham se aberto ainda e lá estava eu criticando mentalmente pequenos detalhes e defeitos. Com a mente tão distante daquele sonho que tanto sonhei.
É claro que os defeitos e os erros eram reais, mas com o tempo meu corpo foi relaxando e minha memória foi me lembrando do quanto eu desejei e sonhei com aquilo pra mim um dia, e como eu os admirava. Perfeitos eu não, quem se importa? Quem deveria se importar? Eu. Meu cérebro e meu coração travavam batalhas com os personagens, a direção, a produção, a coreografia, o cenário, o figurino e outras coisas mais, que nada tinham a ver com o espetáculo citado em si. Foi então que uma pergunta essencial foi feita as minhas lembranças: Por que mesmo eu gostava tanto disso?
E ela respondeu. Entre as falhas dos microfones, o ar levemente frio e extremamente pesado, eu me lembrei de olhar para os olhos dos meus tão admirados na madeira que um dia eu tratei como altar. Os olhos transmitiam uma luz, um brilho e um prazer que a muito tempo não sinto, não vivo. Me lembrei o quanto eu ria e me divertia até nos momentos mais dramáticos, porque o prazer deles de estar ali chegavam até mim. Eu dizia que era isso que eu queria, que era disso que eu precisava para viver feliz. Talvez isso explique porque anda tão difícil me sentir feliz. Meus olhos andam apagados.
Eles riam disfarçadamente dos próprios erros em cena. Lógico que para a mulher obrigada a crescer e analítica que espera um dia fazer melhor do que aquilo, sorrir era um erro e uma falta de respeito com o trabalho. Mas quem estava ali era novamente a menina de quinze anos que só queria esquecer um pouco todo o resto, que aquele sorriso disfarçado e encoberto era um charme, uma diversão, o acabamento que não poderia faltar.
Quando tudo acabou e meu corpo pulou sozinho da cadeira me deixando em pé e batendo palmas como uma criança cantando parabéns, eu não sabia responder se tinha gostado ou não. Era como se eu soubesse que tinha adorado, e muito. Mas tivesse vergonha desse sentimento, afinal era tão simples, com tantos erros e falhas. Mas enquanto a batalha ainda acontecia dentro de mim, me permiti “ser fã” mais uma vez e gritei a plenos pulmões, o que no lugar deles acho uma falta de respeito: LINDOOOOOOOOS!!!
E eles são. A cortina se fechou, e me despedi de vez da menina de quinze anos. Minha euforia cessou e o mundo real, tão adulto, cheio de explicações, justificativas, obrigações, compreensões e dores, voltou. Cheguei em casa com a ultima sensação que esperava sentir depois de dias tão bons. Vazio. As lágrimas de saudade, arrependimento, cansaço e sei lá mais o que, começaram a escorrer sem parar. E eu permiti. Que me lavem, eu preciso. Mais, muito mais, do que ser lavada pelas minhas lágrimas, preciso correr atrás de me lavar com lágrimas de terceiros. Com meu trabalho e o meu melhor. Preciso acender meus olhos novamente, não sei como... mas sei que vou dar um jeito.
*Metade – Oswaldo Montenegro*