terça-feira, 19 de abril de 2011

Amnésia

"E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim ver que toda essa procura não tem fim. E o que é que eu procuro, afinal? Um sinal..."


Ser de vários jeitos torna um ser indeciso, fraco. Sua personalidade fica a mercê do desejo de outros que vivem a sua volta, ele se torna o projeto, o plano, o objeto de outro que busca sabendo o que busca. É estranho.

Era estranho ele lá na beira do abismo tentando se lembrar o que fazia ali. Tinha acordado naquela manhã como qualquer outra. Tomou seu café preto sem açúcar e escovou os dentes com a escova que não trocava a cor fazia anos. O que ele fazia ali? Buscava em sua mente e não se lembrava do trajeto, não se lembrava de ter passado o farol vermelho e mesmo assim chingar o motorista de outro carro sem razão. Fechou os olhos, deixando o ar bater em seu rosto e a paz de um silêncio que a tanto tempo não ouvia, penetrar seu corpo e sua alma. Imaginou como seria pular e sentir esse ar cada vez mais forte e não parar. Era absurdo, não se lembrava do porque de estar ali, mas não queria se matar. Tentava desesperadamente buscar em sua memória porque seus pés o levariam ali.

Ele se sentou na beirada do enorme vazio e como uma criança balançou seus pés enquanto tentava se lembrar. Qualquer um que o visse ali diria que estava prestes a se jogar, mas não era verdade. O que não poderiam entender é que ele tinha tanta certeza que não se mataria que não sentia medo algum de chegar tão perto. Por mais que a vontade e os motivos fossem inúmeros ele sabia que não desistiria. Não tinha coragem, não fazia parte de sua natureza. Ele cansou de tentar se lembrar. Talvez a resposta estivesse no porquê. Começou então a se perguntar porque estaria ali. Lembrou de seus amigos, aqueles que a tanto tempo não via e sabia de suas vidas pelos meios mais distantes. Lembrou de seus amores que tantas vezes fizeram seu estomago se embrulhar e noites se transformarem em dias, sem transformar de verdade sua vida. Lembrou de sua família, as cruzes, as pagas de seus pecados, seus parentes que não podem ser escolhidos e por mais que evitados são na maioria das vezes amados, nem que seja por um instante. Lembrou do trabalho que não era o que tanto estudou e se esforçou, mas era o que o sustentou, até ali. E por fim, lembrou de seus sonhos guardados em uma fronha de travesseiro abandonada no fundo de uma gaveta, mofando.

Olhou para o imenso espaço entre seus pés e o centro do mundo, teve vontade de chamar por seus sonhos. Quantos deles ouviriam? Quantos deles voltariam? Tentou enfim se lembrar do porque tê-los abandonado. Não tinha tempo, não tinha paciência, não tinha força, não tinha oportunidade para realizá-los, mas desculpas... ah, as desculpas... elas sobravam. Teve então a genial idéia de trocar um pouco de suas desculpas pelo que lhe faltava, mas não se levantou. Ficou ali, afinal... pensando em mais desculpas, se lamentando pelas faltas, se livrando de suas amnésias. Deixando que o mesmo vento que fazia seus pés dançarem e sua alma voltar a ser criança, varrerem de sua mente os pensamentos mais surreais, tudo aquilo que o incomodava e fazia sua cabeça pesar e seu coração apertar quase em uma dor física.

Sentado ali, ele se esqueceu do tempo, do carro aberto, da conta a pagar, da janta, da reunião, do amor não correspondido, da amizade traída, da família dividida... Ele sabia que não se mataria, por mais que as coisas fossem complicadas ele não desistiria, não poderia. Mas de sua natureza por vezes perdida, a fuga fazia parte. Era por isso que estava ali, ele fugira mesmo sabendo que iria voltar.


“Uma porta pro infinito, o irreal. O que não pode ser dito. Afinal ser um homem em busca de mais. Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão...”


*Get it Right – Glee*

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Eu não me importo

Um parágrafo pequeno, com frases curtas. Palavras avulsas. Soltas, jogadas no ar. Palavras que pairam por tempo suficiente para entrar em uma mente tão cheia que se torna incapaz de aceitar. Compreender. Algumas se perdem pelo caminho e não serão mais recuperadas, mas não são essas que eu temo. São as que se escondem e ao não serem notadas, ouvidas, ditas, escritas e lidas no tempo certo, acabam por surgir no tempo errado. Palavras de socorro, amedrontadas e repletas de sombras que não as pertence. Palavras não compreendidas. Eu não me importo.

Tempos difíceis e inesquecíveis. Tempos de tantas descobertas solitárias reunidas em um grande grupo de pequenas discordâncias. Ah, tempos confusos. Tempos que se foram e não voltam mais. Tempo perdido. Tempo que foi aproveitado a favor de pensamentos desmerecidos, medos inoportunos e ausência de algo a mais. Busca do tempo perdido. Busco de peito aberto e com uma coragem que só o tempo poderia me forçar. Eu não me importo.

Cada lágrima já foi paga com pequenos sorrisos, daqueles que ficam no canto da boca. Quase imperceptível. Lágrimas que estão guardadas e precisam ser derramadas, para que a divida nunca seja paga. Para que sorrisos não parem de ser dados. Que não só lágrimas sejam capazes de serem derramadas, mas o sangue, que tantas vezes se escorreu por tão menos merecido. Se é a dor passageira que preencherá o buraco permanente; que seja bem-vinda. Eu não me importo.

Se minhas descobertas não interessam e não são desejáveis, que ao menos sirvam como experiência. Da qual não posso mais fugir, não preciso mais fugir. Não quero mais fugir. Me trate como a uma rosa. Se encontre nestas linhas. Não esqueça de meu perfume, da textura de minhas pétalas, e principalmente, do perigo de meus espinhos. Me guarde entre folhas amareladas e tantas vezes lidas de um livro abandonado. Eu não me importo.

Tome conta de meus sonhos. Me espante os pesadelos, mesmo sendo um dos principais motivos para tê-los. Possua meu corpo e minha alma como sendo seus e quando lhe for pedido de forma justa, me entregue meus pertences. Minha liberdade. Até lá, olhe para frente, abra suas mãos e veja o que está em seu poder. Até lá eu não me importo, ele batendo ou não, é seu.


*Defying gravity – Glee*

terça-feira, 5 de abril de 2011

Texto descritivo em primeira pessoa

Eu estava andando em uma rua onde passam por dia milhares de pessoas. Algumas mais esquisitas, outras nem tanto, outras ainda que você pode jurar que não vieram do mesmo planeta que você. Seres estranhos com roupas bizarras e cabelos de cores indefinidas.

Me sentei em uma mesa. Não na mesa propriamente, é claro, mas em sua cadeira que ficava de frente para outra cadeira com a mesa no meio, e esperei para ver o que poderia acontecer. Foi quando o vi. Esse ser, esse estranho, juro ter vindo de outro planeta. Misturava tipos de roupas diferentes e cores que simplesmente não combinavam, ou melhor, combinavam... não sei dizer, afinal nunca entendi a moda. Uma pochete totalmente brega pendurada na cintura e uma postura inaceital. Tinha no rosto traços fortes e delicados. Ombros muito largos e era loiro. Nunca gostei de loiros. Prefiro os morenos. Nada contra loiros e ruivos e muito menos contra aqueles cabelos de cores com nomes de fruta ou doces suculentos. Morenos são muitos mais charmosos e bonitos. Não gostava de loiros. Criatura que chamou minha atenção. Tudo o que não nos é normal nos chama a atenção. Desde que era pequena sempre acreditei que o mundo é um lugar estranho e que as pessoas que nele vivem só podem ser chamados de anormais quando na verdade são normais.

Ele se sentou na outra cadeira que ficava em frente a minha com a mesa no meio. Me olhou. Eu olhei. Ele sorriu. Eu não. Ele parou. Eu sorri. Tudo bem?, ele disse. Eu acenei. Que tipo de pessoa perguntava se o outro estava bem sem nem sequer conhece-lo. Começou então a falar de sua vida e sorria de uma maneira que me irritava ao mesmo tempo que me intrigava. Porque alguém com os dentes tão certos precisava de aparelhos? Talvez fosse para seu queixo que era levemente mais para frente que seu próprio nariz. Pensei em perguntar. Pensei em perguntar muitas coisas das quais nunca tive vontade de perguntar a ninguém. O que você gosta de comer?, eu falei. Muita coisa, ele respondeu. Ser indeciso. Não gosto de pessoas que me deixam confusa. Pessoas indecisas me deixam confusa. Como alguém não sabe o que gosta de comer? Fui para casa.

Minha casa é simples. Um apartamento de três cômodos. Três cômodos razoáveis e mais a lavanderia, que por ser pequena nunca contei como cômodo. Não gostava dela me dava medo. Me dá medo. Sua janela dá direto para o banheiro e quando me sento no vaso tenho a sensação que a qualquer momento uma mão, digo, mãos seguidas de braços longos e brancos vão me pegar enquanto me distraio com minhas necessidades. Por isso nunca me distraio. Ficava pensando no alienígena. Isso me irritou. Porque pensar nele? Me irritou. Pensar que quando estava lá tive vontade de lhe fazer perguntas, despertou meu interesse. Me irritou muito. Não era assim, não me apaixonava rápido. Nunca acreditei em amor a primeira vista. Me irrita demais.

           Me arrumei, colocando uma calça longa e colada que deixava ver o contorno de minhas pernas que na minha opinião são grossas demais para a minha bunda. Um blusa com uma gola diferenciada e preta. Sai. Cheguei no lugar que tinha música alta e pessoas de corpos, bocas e com certeza estavam chegando a colar suas próprias almas. Algo em meu peito pulou. Não existe inveja boa. Eu estava com inveja. Mas uma inveja boa. Resolvi ir pegar uma bebida. Queria colar minha alma. Subi a escada cujo os degraus eram largos e baixos.Um, dois, três, quatro. Quatro degraus. Não gosto de números quebrados, números quadrados me dão aflição. Azar. Bati o pé no chão firme fingindo ser o quinto degrau. Cinco é um número bom. Um braço se esticou na minha frente. Não era afinal um número tão bom. Era ele. O estranho. Estava sentado com alguém um cima dele que não sei bem dizer se era um homem ou uma mulher. Afinal hoje em dia não se define mais o sexo pelo corte de cabelo, pela roupa que usa e muito menos pelo que se tem no meio das pernas. A pessoa era grande. Enorme. Mas o estranho era ainda maior. Nunca fui alta, sempre ficava entre a segunda ou terceira na fila crescente do fundamental. Mas tinha com certeza o dobro de sua largura. Ele sorriu. Eu sorri. Talvez de choque. Ela não sorriu. Com certeza era choque. O que alguém que usa pochete estaria fazendo naquele lugar? Me deixou confusa e indecisa. Não gosto de ficar confusa. Ele falou, mas eu não ouvi. A música era alta. Eu acenei. Ela não se mexeu. Ele sorriu. Eu sorri. Ela sorriu. Senti raiva, ódio, inveja. Mas uma inveja boa. Mexi a mão em um gesto de até mais tarde. Bebi. Até ali só queria beber para acabar com a sede. Bebi. A sede acabou. Bebi. Olhei em volta e uma familiar música começou. A inveja cresceu. Inveja boa. Bebi. Minha bexiga apertou. Bebi. As coisas começaram a ficar estranhas, nubladas, tonta. Bebi. Desci novamente os degraus que agora eram estreitos e altos. Sentei. Imaginei e meu estomago reclamou. Meu coração pulou e a raiva adormeceu. Fechei os olhos. O mundo parou. Tudo passou. Eu estava no colo do estranho no lugar da pessoa de sexo indefinido.

*Tudo Certo - Luiza Possi*