"E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim ver que toda essa procura não tem fim. E o que é que eu procuro, afinal? Um sinal..."
Ser de vários jeitos torna um ser indeciso, fraco. Sua personalidade fica a mercê do desejo de outros que vivem a sua volta, ele se torna o projeto, o plano, o objeto de outro que busca sabendo o que busca. É estranho.
Era estranho ele lá na beira do abismo tentando se lembrar o que fazia ali. Tinha acordado naquela manhã como qualquer outra. Tomou seu café preto sem açúcar e escovou os dentes com a escova que não trocava a cor fazia anos. O que ele fazia ali? Buscava em sua mente e não se lembrava do trajeto, não se lembrava de ter passado o farol vermelho e mesmo assim chingar o motorista de outro carro sem razão. Fechou os olhos, deixando o ar bater em seu rosto e a paz de um silêncio que a tanto tempo não ouvia, penetrar seu corpo e sua alma. Imaginou como seria pular e sentir esse ar cada vez mais forte e não parar. Era absurdo, não se lembrava do porque de estar ali, mas não queria se matar. Tentava desesperadamente buscar em sua memória porque seus pés o levariam ali.
Ele se sentou na beirada do enorme vazio e como uma criança balançou seus pés enquanto tentava se lembrar. Qualquer um que o visse ali diria que estava prestes a se jogar, mas não era verdade. O que não poderiam entender é que ele tinha tanta certeza que não se mataria que não sentia medo algum de chegar tão perto. Por mais que a vontade e os motivos fossem inúmeros ele sabia que não desistiria. Não tinha coragem, não fazia parte de sua natureza. Ele cansou de tentar se lembrar. Talvez a resposta estivesse no porquê. Começou então a se perguntar porque estaria ali. Lembrou de seus amigos, aqueles que a tanto tempo não via e sabia de suas vidas pelos meios mais distantes. Lembrou de seus amores que tantas vezes fizeram seu estomago se embrulhar e noites se transformarem em dias, sem transformar de verdade sua vida. Lembrou de sua família, as cruzes, as pagas de seus pecados, seus parentes que não podem ser escolhidos e por mais que evitados são na maioria das vezes amados, nem que seja por um instante. Lembrou do trabalho que não era o que tanto estudou e se esforçou, mas era o que o sustentou, até ali. E por fim, lembrou de seus sonhos guardados em uma fronha de travesseiro abandonada no fundo de uma gaveta, mofando.
Olhou para o imenso espaço entre seus pés e o centro do mundo, teve vontade de chamar por seus sonhos. Quantos deles ouviriam? Quantos deles voltariam? Tentou enfim se lembrar do porque tê-los abandonado. Não tinha tempo, não tinha paciência, não tinha força, não tinha oportunidade para realizá-los, mas desculpas... ah, as desculpas... elas sobravam. Teve então a genial idéia de trocar um pouco de suas desculpas pelo que lhe faltava, mas não se levantou. Ficou ali, afinal... pensando em mais desculpas, se lamentando pelas faltas, se livrando de suas amnésias. Deixando que o mesmo vento que fazia seus pés dançarem e sua alma voltar a ser criança, varrerem de sua mente os pensamentos mais surreais, tudo aquilo que o incomodava e fazia sua cabeça pesar e seu coração apertar quase em uma dor física.
Sentado ali, ele se esqueceu do tempo, do carro aberto, da conta a pagar, da janta, da reunião, do amor não correspondido, da amizade traída, da família dividida... Ele sabia que não se mataria, por mais que as coisas fossem complicadas ele não desistiria, não poderia. Mas de sua natureza por vezes perdida, a fuga fazia parte. Era por isso que estava ali, ele fugira mesmo sabendo que iria voltar.
“Uma porta pro infinito, o irreal. O que não pode ser dito. Afinal ser um homem em busca de mais. Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão...”
*Get it Right – Glee*
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