Antes já havia se perguntado o que tanto a incomodava...
Ela finalmente parou para prestar atenção. Sua imagem no espelho não correspondia a sua imagem real. Como a sombra de Peter Pan, que criava vida e resolvia fugir dele. Era isso! A sombra havia fugido e deixado apenas um corpo igual em sua imagem e tão diferente em sua essência. Será?
Talvez a sombra, cansada de ser limitada, resolveu se desprender e seguir a sua jornada; quanto ao corpo, livre por si só, tomou o seu lugar com forte presença. Aonde ele estava todo o tempo que ela ficou presa a sombra, não poderia responder. A coincidência a assombrava. Apesar de qualquer coisa se sentia incompleta, sem o corpo por inteiro e sem nem resquício de sua sombra.
Se olhava no espelho, virando de um lado para outro. O que a incomodava não eram – nem de longe – as diferenças e sim as semelhanças. E eram tantas! Seus cachos, sua cor, seu corpo, sua altura, mão, o sorriso que se esconde no canto da boca, a complicação, o impossível, o platônico, a sombra.
... olhar aquela imagem foi como um soco na boca de seu estômago. Ela estava simplesmente apavorada!
*Flores do Mal – Barão Vermelho*
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