terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Verde, azul e Lua - Moça

Deixou o ar velho sair lentamente de seus pulmões abrindo lugar para um novo oxigênio, um oxigênio mais azul. Com esforço ela abriu os olhos para aquela claridade que não estava acostumada e aos poucos eles começaram a captar todas as informações e imagens novas. Era estranho, mas lindo. O chão era coberto por uma terra muito fina e macia que arranhava com delicadeza seus pés. Ela continuou a andar. Olhou para o horizonte e viu algo que lhe fez arrepiar todo o corpo, pois era belo e atrativo. Era a primeira vez que a menina, agora moça, via o mar.

Ao continuar andando notou sob seus pés que a terra havia mudado de textura e começara a ficar úmida. Ela se abaixou e tocou o chão com seus dedos por buscar, com um tato mais comum, que nada lhe passasse despercebido. De repente uma onda veio do fundo do mar e empurrou suas águas até a mão da moça e foi assim que ela foi tocada pela primeira vez por ele.

Ela estava encantada e a cada dia se sentia mais atraída por todas as águas salgadas que a rodeavam. A liberdade que ele representava e sua eterna vastidão dava a moça vontade de nunca mais sair de sua beira. O mar todos os dias pela manhã se afastava, porém sempre deixava algo a ela; presentes, acreditava. Conchas, caracóis, lembranças.

Nutria por todo aquele azul sentimentos únicos que eram diferentes da árvore, da mata e tão grandes quanto. Mas ainda não sabia nomeá-los. Ela o respeitava, admirava e sentia como se seu coração fosse sair de seu peito em encontro a ele todas as vezes que a tocava. Em todo aquele mundo só dela, com tantas coisas a lhe oferecer, algo nas águas lhe chamavam e era a ele que ela pertencia. Acreditava que sua vida eram aquelas ondas e que seu destino estava com ele e fazia parte dele. Ela já sabia dividir pedaços de sua alma e assim lhe entregou o maior deles.

Ela acordou com seu toque em uma manhã comum. Em seus sonhos achara as respostas e resolveu que ali se entregaria a ele por completo. Ela andou em sua direção sentindo com atenção o chão sob seus pés mudando e mudando. Ele havia se afastado, como sempre, mas ela foi a seu encontro. Sentiu seus pés entrando nas águas e seu coração deu um salto em seu peito. Estava certa. Estava completamente apaixonada. Sentiu as águas tomarem conta de suas longas pernas, de seu quadril, seu tronco, seus braços, seu pescoço... e finalmente estava totalmente entregue. Submersa.

Notou enfim, que não havia mais chão sob seus pés. Seu corpo congelou e sua consciência gritou. Gritou tão alto que assustou o mar que aquela hora estava entregue a ela também. Ela foi bombardeada por novos sentimentos, mas esses não gostava de sentir. Sentiu medo. Pela primeira vez em sua vida estava apavorada. Não havia mais chão. Ela estava envolvida, completamente envolvida. Não tinha volta. Estava sem chão. Ela aprendeu naquele momento que havia um preço. O preço por sua entrega seria sua vida.

Desesperada começou a atingir o mar, com gritos, socos, chutes. Suas lágrimas se juntaram as águas. Ela queria ir embora, esperava que não fosse tarde. Ele se agitou junto com a moça, mandando a ela respostas que jogavam seu delicado corpo de um lado a outro, ondas cada vez mais fortes e altas. Cruéis. Precisava entender que ali a verdade era que ela estava lutando pela própria vida e não contra ele. Entendeu. Ele a amava e a desejava, mas o preço a ele também era muito alto. As lágrimas da moça e seus gritos por socorro o despertaram. Ele a estava sufocando e machucando. Não era isso que ele queria. Acabaria por separá-la de sua alma. Seria o culpado. Era tarde para ele também? Ele a queria e mais do que isso, a queria inteira.

A moça desistiu. Não sabia mais dizer a quanto tempo estava naquela batalha. Não sabia mais o que fazer. Em meio a tudo aquilo relaxou seu corpo, não havia volta, não havia escolha. A escolha já tinha sido feita ela teria que aceita-la. Seria dele. De corpo e alma. Ela o amava mais que a própria vida e agora estaria provado. Podia sentir ainda as fortes ondas que cobriam sua cabeça. Sua garganta queimava. Seu corpo pedia por oxigênio. Seus olhos se fecharam e sua consciência se calou.


*Ana e o Mar – O Teatro Mágico*

Nenhum comentário:

Postar um comentário