sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Verde, azul e Lua - Mulher

Olhou para aquele rosto tão conhecido e a única coisa que podia notar era o que lhe faltava; vida. A vida por detrás do sorriso daquela mulher que tanto amava. Não poderia deixar isso acontecer e se acalmou. Com delicadeza e aproveitando o ar da noite, quando podia ir um pouco além de suas margens comuns, deixou que suas ondas empurrassem o corpo para a praia. Lá passou o resto da noite, ainda envolvendo-a, mas cada vez menos. Ela escolheu ele. Ele escolheu a vida dela. Enfim compreendeu; não poderia deixar de ser e nem poderia torná-la mar.


Com uma forte pressão acordou. Sua garganta ainda ardia e seu corpo inteiro doía. Ela estava deitada nas pedras olhando para o céu estrelado e escuro, procurou a sua volta, mas não encontrou as águas. Estava só. Ele a havia deixado como deixava seus presentes pela manhã. Sua última lembrança antes de se afastar pela última vez. Estava em outro lugar, ela não via a praia nem a mata ao longe. Não achava ele. Estava só. Seu corpo havia mudado novamente, dessa vez mudanças sutis, e por todo ele haviam cicatrizes e marcas de uma luta que não sabia dizer se doía mais por dentro ou por fora. Só.

Com esse pensamento colocou a mão em seu peito e notou com angustia que o pedaço de alma que havia deixado com ele não fora reposto por completo. Ele deixou um pouco de si, mas levou muito dela. Não era mais inteira. Seu destino era ficar eternamente envolvida pelo mar, mas o destino dele era continuar sem ela. Ela escolheu morrer por ele. Ele escolheu viver sem ela.

Por muito tempo ficou deitada, na mesma posição, sem mexer um músculo. Esperava que células fossem a regenerar, como era na mata. Sentia saudades de sua árvore, sentia falta de sua sombra. Mas seu corpo já não era de forma alguma compatível com suas raízes. Tomada por um impulso resolveu se levantar e aceitar que seguiria sozinha. Ao colocar os pés no chão percebeu que eles já não eram mais os mesmos e olhando para baixo viu que estavam encostados, mas não podia sentir, não conseguia mais sentir o chão. Teria que viver assim; sem verde, sem azul, sem chão. Onde a noite era eterna.

Já não reclamava mais das pedras duras sob seu corpo e nem da noite que nunca ia embora. Não gostava de viver daquele jeito, mas aprendera a conviver. Ficava deitada com os braços sob a cabeça olhando para o céu e admirando as estrelas, seus desenhos, seu brilho e sua beleza. E numa noite notou que uma delas estava brilhando mais e resolveu, por instinto talvez, prestar atenção. A estrela começou a se aproximar e se revelar algo muito maior. A mulher descobriu que não estava mais tão só, agora ela conhecia a Lua.

Com toda a escuridão que a envolvia e seus mistérios, seu silêncio e suas palavras tão desconexas ela era encantadora. Mas a mulher havia aprendido a desconfiar de coisas encantadoras, ela havia perdido a confiança em tudo que era belo e que lhe trazia paz. Suas cicatrizes pareciam brilhar ainda mais no luar. Era como se a Lua, sem querer, estivesse lá para lembrá-la do quão frágil e solitária era. Se viu incapaz de se entregar. A Lua despertava instintos dos quais a mulher nunca precisou depender antes, pois sua razão lhe fora suficiente. Estava confusa e apavorada. Mesmo com tudo isso, a Lua a conquistou.

A mulher olhava em sua volta e não via nada, além de pedras. Ao olhar para o céu via a Lua, cercada de estrelas e cometas. Descobriu ali dois novos sentimentos; o ciúme e a inveja. Tinha ciúmes da Lua e inveja das estrelas. Elas pareciam tão próximas e parecia tão injusto a mulher que ela, tão pequena diante de tudo aquilo, precisasse lutar por sua atenção. A mulher não brilhava, não era bela, não tinha luz. Não mais.

Não sabia dizer se gostava de verdade da Lua. Não sabia responder suas perguntas, nem entendia grande parte de suas faces. Não confiava nela. A admirava, com certeza. Mas como não admirá-la? A queria por perto, gostava de sua luz, do que ela lhe oferecia. Sentia que, diferente do mar, não abriria mão de maneira alguma da Lua por simplesmente a querer. Toda aquela luta a tornou uma mulher egoísta. Não estava mais disposta a deixar o que lhe trazia vida partir por ser o melhor a fazer. Nunca deixou um pedaço, por menor que fosse, de sua alma com a Lua sem algo em troca e sem a certeza de que não abriria novos buracos.

Perguntou o que sentia então pela Lua, mas não havia ninguém para lhe responder. Decidiu dormir e ver se seus sonhos trariam as respostas, mas só trouxeram mais perguntas. Buscou no vento. Buscou em suas cicatrizes. Buscou nas pedras. Secretamente, buscou entre as estrelas e na própria Lua. Nada. E só conseguia ter certeza de uma coisa; Não era o amor agradecido que sentia pela árvore e não era o amor apaixonado que sentia pelo mar, mas era amor. Não sabia qual, mas a amava com força igual a qualquer outro amor.

A Lua não lhe fazia nenhum bem maior, mas nunca lhe fez grande mal. A Lua não conhecia muito bem a mulher e a mulher não queria o passado da Lua. A Lua não dependia da mulher e a mulher viveria sem a Lua. A Lua nunca prometeu nada a mulher e a mulher nunca esperou nada da Lua. A Lua nunca deixou a noite estrelada pela mulher e a mulher nunca deixou de esperar pela Lua...


Em um lugar que nunca se ouviu falar, em um planeta que nunca ousaram imaginar, de uma galáxia impossível de achar.


*Quem de nós dois – Ana Carolina*

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