quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A Dentista e o Monstro

Eu tinha 15 anos na época. Eu era mais um adolescente perdido e com espinhas na cara. Um estranho, mas não um estranho qualquer. Eu havia mudado de cidade, estava entrando em um colégio novo e como se isso não fosse o bastante, em uma etapa nova, pois estava entrando no meu tão sonhado Ensino Médio. Quando se é moleque, olhamos para os “caras do médio” e desejamos chegar lá, como se isso fosse resolver todos os nossos problemas. Eu acreditava que seria querido pelas garotas, que seria mais esperto (Não inteligente e sim esperto. Malandro.), como se ao entrar no médio meus músculos fossem aparecer, meu cabelo ficar legal e é claro minha voz e meu jeito de falar ou de andar fosse provar o quão “macho” eu era. Pura enganação. A verdade é que aqueles que já eram queridos pelas garotas, que tinham estilo e todo o resto antes do médio, ganhavam mais destaque ainda. E com isso os nerds e os esquisitos só ficavam mais nerds e esquisitos.

Eu a conheci naquele ano. Ela não se destacava, não era ninguém. Em uma aula de literatura discutíamos a importância dos clássicos, e mais do que isso, a importância do romantismo. Eu cometi o terrível engano de me direcionar a este gênero como o “desperdício de tempo e capacidade de escrita”. Desde aquele dia eu tinha a impressão que ela olhava para mim como se me odiasse, eu devia ser para ela, o maior dos babacas, insensível, incapaz de uma conversa inteligente e sem gosto nenhum pela boa leitura. Descobri mais tarde que eu tinha razão.

Não sei como, nem quando exatamente, mas começamos a conversar. Ela tinha um ar superior e era mimada, continuava a me olhar com desprezo. E quando me dei por mim, já não era mais assim. Ela sorria quando conversávamos, começou aos poucos a contar de sua vida, seus namorados, seus pais, seus livros. Me peguei enfim, olhando um dia para ela, buscando uma explicação. Ela era bonita, mas não chegava nem perto de ser linda. Era esperta e era inteligente, mas não era um gênio. Não era muito meiga, nem delicada. Usava um perfume que em alguns dias me enjoava e em outros era o que me acalmava. Mas ela tinha algo, algo de diferente que inexplicavelmente a diferenciava das outras. Os olhos. Aqueles olhos castanhos amarelados traziam a maior inocência e fé que eu tinha visto. Ela acreditava no mundo, nas pessoas, acreditava fielmente em seus romances que lia com tanta fúria. Eu estava apaixonado.

Quem criou a frase “O amor é cego” com certeza se referia a paixão adolescente. Eu me vi capaz de ser um autor do gênero que desprezava, me vi capaz de escrever as mesmas palavras que estavam escritas nos livros que ela devorava porque, para meu total espanto e apavoramento, eu compreendi finalmente cada uma delas. Eu a endeusava, ela estava no meu pedestal, era minha musa e assim se tornou intocável. Eu comecei a achar que era feio demais, sem graça, burro, magrelo e até fedido para ela. “É muita areia para o meu caminhãozinho” eu pensava. Com seus namorados que me contava e com tantos outros que olhavam para ela – naquele momento a idéia de que só eu a notava era inconcebível - como poderia eu, o babaca que odiava romantismo, ter seu amor?

Eu acreditei de tal maneira que ela era impossível que minha paixão durou pouco menos de um ano e ela nunca soube. Quando se está cego de amor, e se deixa de amar, é como se tirassem uma venda de nossos olhos e começamos a reparar em coisas que nunca havíamos reparado antes. Se ela tinha tantos namorados, porque estava sempre sozinha? De repente toda a inocência que existia em seus olhos e sua fé começaram a me incomodar terrivelmente. Em alguns momentos ela era tão inocente que chegava a ser burra. Veja bem, eu não era mais apaixonado por ela, mas ela tinha se tornado minha melhor amiga e eu muito me importava. Era revoltante o como ela permitia que tudo e todos passassem por cima dela. Por algum tempo eu me sentia magoado e comecei a achar que ela não tinha personalidade, afinal escutava tudo o que os outros falavam e se importava demais com o que pensavam. Seus maiores sonhos eram: Casar com 23 anos depois de terminar a faculdade de medicina e ter filhos aos 25 que pudesse buscar na escola com seu próprio carro. Para um garoto de 17 anos, isso soava como a maior besteira do mundo. Ela ia se matar de estudar para entrar para a tal medicina e mesmo assim é muito raro quem consegue. Quem pensaria em constituir família antes dos 30? Namorar na faculdade e estudar como um louco sem tempo nem de aproveitar as festas, as bebidas... Tudo era um grande absurdo.

No final do Ensino Médio eu a conhecia muito bem. Ela dizia que gostar de verdade de uma pessoa era conhecer todos os seus defeitos e ainda assim aceita-la. Eu aceitava a sua teimosia, seu perfeccionismo, seu jeito mandão de ser e de complicar até o problema mais simples do mundo. Mas eu queria ter sua fé, sempre quis. Eu a admirava, ela era a única pessoa que conhecia que lia contos de fadas por puro prazer, sem se cansar. Sem dúvidas eu achava que ela era um tanto velha para isso, mas aquelas histórias a alimentavam e fazia dela a pessoa que aprendi a respeitar e amar. Ela tinha um jeito diferente pra cada coisa. Ela sempre comemorava tudo com um enorme pote de sorvete com pedaços de chocolate e um bom filme - normalmente uma comédia romântica, é claro. A verdade era que ela complicava sua própria vida, mas fazia a minha ser simples e ao seu lado meus problemas, não sei explicar, tinham soluções.

Na nossa formatura ela estava radiante. Acreditava que tinha dado o primeiro passo para realizar seus sonhos e que tudo daria certo. Esperava o resultado de seu vestibular e tinha muita esperança. Me pegou totalmente de surpresa ao virar para mim e perguntar com aquele brilho nos olhos que eu tanto admirava: “Será que a gente vai ser sempre assim? Você vai no meu casamento? Vai me chamar pra beber? Vai me convidar para o seu?” Eu não respondi a nenhuma delas, apenas sorri e lhe dei um beijo na testa. Algumas coisas, acreditava eu, nunca iam mudar e ela era uma delas.

Os resultados do vestibular saíram logo depois da formatura e para nossa grande surpresa, eu havia entrado para psicologia e ela não havia entrado em nenhuma faculdade que prestou. Lembro que ela, no dia em que saíram os resultados, apareceu em minha porta com um pote de sorvete com pedaços de chocolate e a nova comédia romântica. Eu estava muito feliz com meus resultados mais muito triste por ela – nós dois estávamos – e é por isso que sempre achei que naquele dia o sorvete e o filme serviram muito mais para que ela afogasse seu desgosto do que para a comemoração da minha entrada na faculdade.

O tempo passa muito rápido depois que saímos do colégio. Somos obrigados a tomar um rumo em nossas vidas, nem que seu rumo seja o bar mais próximo, ou sua cama por tempo indeterminado. Comecei a trabalhar e a estudar e, quem diria, a namorar. Nós nos víamos pouquíssimo, mas nunca perdemos o contato. Ela passou mais dois anos estudando e tentando entrar para medicina sem sucesso. Tomamos sorvete outras vezes quando consegui meu primeiro estágio e ela seu primeiro emprego, mas eles ficavam cada vez mais raros, não pela falta de bons motivos de comemoração, mas pela falta de tempo. Ela, mesmo a distância, continuava presente em minha vida, de alguma maneira cuidando de mim. Sempre me ligava e quando eu entrava em crises de amadurecimento – muito comuns entre os 18 e 30 anos – ligava para ela sem pensar duas vezes, no meio da noite se precisasse. Ela estava sempre lá, pra mim. Sempre estaria.

Eu namorei com várias garotas, e ela com poucos caras. Eu me formei em psicologia, ela desistiu de medicina e estava cursando odontologia – o ramo mais próximo da saúde que ela conseguiu entrar. Eu tinha meu próprio apartamento e meu próprio carro, ela tinha acabado de pegar um fusca que seu pai deu de presente, pois tinha acabado de comprar um pálio. Eu nunca mais liguei pra ela sem ser, é claro, em minhas crises. Ela depois de um tempo parou de me ligar.

Eu estava muito feliz, tinha 25 anos, estava formado, tinha minha casa, meu carro e estava noivo da mulher que mais amei em minha vida. Já fazia muito tempo que não nos víamos e num pulo, com uma corrente elétrica em minha coluna, saí. Comprei um pote de sorvete com pedaços de chocolate, passei na locadora mais próxima e peguei o último lançamento em filme meloso e liguei para minha velha amiga. Ela atendeu e eu quase não reconheci, sua voz tinha mudado um pouco, parecia mais rouca, mais densa, mais velha. Eu a convidei para vir até a minha casa e disse que tinha uma surpresa, ela aceitou e falou que também tinha algo para mim. Eu estava ansioso e de repente me sentia com 15 anos novamente, não tinha reparado no tamanho da minha saudade até a campainha tocar.

Fazia mais de um ano que eu não a via e ela tinha mudado muito. Seu cabelo ainda era o mesmo, seu jeito de se vestir e até o seu sorriso quando me viu, mas havia algo nela que eu simplesmente não consegui encontrar, que estava muito diferente. Ela me deu um grande abraço e foi como se eu estivesse em casa depois de uma longa viagem. Aqueles braços tinham sido meu colo nos últimos 10 anos, era para eles que eu corria e era deles que vinham minhas forças quando eu achava que não tinha mais jeito. Nós comemos todo o sorvete, assistimos o filme – ela chorou no final, como sempre – e passamos o resto do dia conversando sobre tudo. Relembramos nossos velhos tempos, rimos de nossos próprios fracassos e me senti a vontade para, em meio a uma crise de riso, confessar que tinha sido perdidamente apaixonado por ela, mas agora estava noivo. Seu riso se calou e seu rosto mudou.

Ela disse que estava tarde e precisava ir embora, pois no dia seguinte trabalharia muito cedo. Eu senti um frio, como um mau agouro percorrer todo o meu corpo, pois naquele momento notei enfim o eu estava diferente nela. Seus olhos. Seus olhos castanhos amarelados não brilhavam mais, não havia mais esperança e a fé tinha sumido por completo. Desesperado pedi desculpas por ter contado aquilo, afinal fazia tanto tempo... Ela mexeu na bolsa, retirou um envelope e me entregou dizendo que tinha escrito para mim a pouco menos de dois anos. Em seguida levantou as mãos até seus olhos como se estivessem sujas, como se houvesse sangue de um terrível assassinato nelas, ou algo pior e virando-as ficou olhando com seus olhos – agora mortos e repletos de nojo e repugnância – e disse: “Me tornei enfim um monstro.” Ela abaixou as mãos e olhou para mim como se tivesse acabado de sair de uma espécie de transe, sorriu amarelamente e foi embora.

Eu me pergunto até hoje porque não fui atrás dela, porque não exigi uma explicação, porque não a chamei de volta, porque não fiz alguma coisa... qualquer coisa, mas eu sei a resposta. Eu estava apavorado. Não tenho sequer idéia do tanto de tempo que fiquei parado olhando para o envelope nas minhas mãos e para a porta que se fechou atrás dela, me lembrando daquele olhar que eu nunca tinha visto antes. Por fim a adrenalina em meu corpo abaixou e eu andei até meu sofá onde tínhamos passado uma tarde tão gostosa e nostálgica que, mesmo tendo acontecido a menos de quinze minutos, parecia ter acontecido a muito tempo atrás. Abri o envelope e dentro havia uma carta.

“Meu sempre melhor amigo,

Te peço desculpas por não ter coragem de te falar essas palavras pessoalmente e ser covarde ao ponto de te escrever ao invés de ir até você.

Sabe quando as pessoas falam que devemos fazer as coisas para os outros sem querer nada em troca? Isso não existe! E é mentira se alguém se diz ser assim, até mesmo quem fala isso, posso te jurar. Quando fazemos algo por alguém, quando oferecemos algo, SEMPRE queremos uma troca. É assim qualquer relacionamento, seja ele de amizade, de trabalho ou amoroso. Ninguém é tão bom, ninguém é tão humano. O mundo deixou de ser humano a muito tempo.

Você me chamava de idiota e inocente por deixar que outros passassem por cima de mim. Por me esforçar e dar meu máximo para fazer coisas para os outros e em nenhum momento reparou que você era um deles. Talvez o maior de todos. Não quero que me entenda mal, te ajudar, te ouvir e te oferecer consolo era muitas vezes meu alivio, pois isso fazia eu me sentir como se não estivesse só. Me dava e me dá sim, prazer quando me liga no meio da noite e posso lhe ser útil, mas não sou como a um santo que só se acende uma vela quando se está no sufoco.

Eu precisei de você. Ainda preciso. Não sou de ferro, tenho problemas e me decepciono e me magôo como qualquer outra pessoa. Tantas noites eu te liguei porque era eu que precisava de um colo, uma palavra amiga, um abraço, um beijo, mas você não estava lá. Não inteiro como eu estava por você. Não te culpo e concordo que não tinha obrigações, mas não posso deixar de me sentir traída e magoada. Não é porque sou apenas uma amiga que não preciso de atenção e cuidados para no mínimo não me sentir uma completa idiota por te dar apoio e correr todas as vezes que precisa. Mas você nunca foi assim. Sempre foi dependente, mas nunca deu sinais de ser uma pessoa pela qual se pode depender.

Por falar em ser sua amiga... Eu te amo! Te amo de verdade, como uma mulher ama a um homem. Te amei desde quando nos tornamos amigos. Tentei te falar de tantas formas diferentes: te mostrei filmes, te cantei músicas, te fiz ler textos que falavam de você. Quando te conheci, lá no primeiro ano do Ensino Médio, em uma aula de literatura sobre o romantismo te achei o maior babaca de todos. Um insensível, incapaz de ter uma conversa inteligente e sem gosto nenhum para a boa leitura. Eu não estava tão errada assim. Só não imaginava que fosse tão cego. Você se diz durão e esperto, mas é mais frágil e inocente do que eu!

Eu acreditava no mundo e no ser humano. Eu não entendo como as pessoas podem viver tão no próprio mundinho, realizando seus próprios sonhos, seus próprios objetivos, alcançando suas próprias metas e não olham nem um minuto para o lado e não param para pensar em nenhum momento que seus sonhos podem destruir o de outros. Mas quem se importa não é? Cada um tem o direito de ser feliz! O mundo tem uma concepção de “direito” que jamais entenderei. “Vou ser feliz não importa a que custo porque me é um direito, é o meu sonho e quem não entende isso não quer o meu bem, portanto não merece minha atenção, meu respeito e meu amor!” O ser humano se transformou em uma espécie de monstro devoradora de seus próprios ideais e ética. Suas próprias regras. É muito fácil julgar e muito confortável arrumar desculpas.

Eu estou nesta carta te julgando. Estou te cobrando e reclamando, pois meus sonhos foram todos por água a baixo. Me tornarei um monstro completo no dia em que sentir que apesar de tudo isso, nada valeu a pena. E então eu não terei mais o porquê de acreditar, e minha fé terá acabado por completo e por não ter nada a perder, colocarei tudo em jogo e dane-se o resto do mundo.

Espero com o pouco de fé que me restou dos meus 15 anos com o dia que me chamará para tomar um sorvete com pedaços de chocolate ao invés de me ligar na madrugada. Espero o dia que cuidará de mim. Espero o dia que talvez (ainda me permito sonhar, as vezes) me olhe como um homem olha uma mulher e veja em mim a pessoa que sempre esteve aqui e que agora merece algo em troca.

Ps: Sonhei um dia fazer tanta diferença em sua vida, como você fez na minha.”

Eu dobrei cuidadosamente a carta e a guardei no envelope. Lágrimas escorriam pelo meu rosto e foi quando reparei que todos aqueles anos, ela me conhecia melhor que ninguém e eu não fazia a mínima idéia de quem ela era. De uma única vez eu perdi minha melhor amiga, minha irmã, minha companheira, meu porto seguro. Eu perdi pelo simples fato de não saber que tinha. Como um bônus de celular que perdemos não porque não tínhamos pra quem ligar, mas porque não sabíamos que tínhamos e ao invés disso economizamos ao máximo. É um exemplo realmente idiota para o momento, mas muito fácil de se entender. Não a culpei em nenhum momento e nenhuma daquelas palavras, na minha opinião, não tinham sentido. Eu merecia aquilo. Ela passou por cima de mim porque eu merecia.

Levantei e fui jogar água no meu rosto. Tudo parecia um sonho. Olhei no espelho e reparei que havia um brilho diferente em meus olhos. Havia fé. Acredito que ela se sacrificou, que se tornou monstro, mas me transformou e talvez eu nunca me perdoe de ter feito isso a ela. Aquela garota que não se destacava me transformou em um ser humano, em alguém que a partir daquele dia deixou seu mundinho e entendeu que sonhos devem ser sim sonhados, mas nem sempre eles devem ser realizados. Contos de fada existem, mas não poderiam deixar de ser histórias e nem por isso devemos deixar de acreditar.

*Dona – Roupa Nova*

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